Pelo fim do termo carente no universo escoteiro

A amiga e conselheira (ára sudeste) Patrícia Diniz, envia esta interessante e importante reflexão.

Boa Leitura,

Altamiro

Cada vez mais acredito que precisamos evoluir e aprofundar nossa atuação social como Escoteiros. Há muitos anos percebemos a evolução do universo do desenvolvimento social ou também conhecido como investimento social. Cada mais no passado estão no termos como filantropia, caridade, assistencialismo para referenciar nossa atuação comunitária.

A consultoria Célia Schlithler explana no texto ” Pelo fim do termo carente ” um novo posicionamento, e que me inspirou a pensar em nossa atuação e por que não criar um movimento pelo termo carente no universo escoteiro . Assim, recomendo a leitura do texto abaixo e que ele possa inspirar a todos os nossos dirigentes e escotistas, educadores e formadores de lideranças.

Patricia Diniz

Pelo  fim do termo carente

Há evolução no universo do investimento social.  “Assistencialismo”, “paternalismo”, “caridade” são termos que praticamente só se usa para se referir ao passado ou a erros ainda cometidos no presente.
A palavra “carente”, porém, ainda é vastamente empregada.  Ouço-a em todos os eventos, seminários, conferências – pronunciada por iniciantes na área social e por veteranos com sólida formação. Na mídia, então, nem se fala e, pior, “menor carente” ainda impera e nos brinda com duas visões equivocadas em um único termo.
Que fique claro desde já: não estou julgando aqueles que usam “carente” com a intenção de evitar palavras que possam parecer preconceituosas, como “pobre”, por exemplo.  Estou propondo outra coisa.  Vamos lá:
Uma busca por “carente” no Google traz como um dos primeiros resultados a seguinte frase: “ter um namorado é o objetivo da mulher carente”…  Já uma busca no site do GIFE (em 31/05/11) encontra 226 resultados para o vocábulo que, certamente, não aludem a mulheres sem namorados…
A reflexão que proponho é a seguinte: Por que esta necessidade de qualificar assim as pessoas com quem se faz investimento social?  Por que não dizer simplesmente:
100 jovens participam do Programa XYZ.

Em vez de:
100 jovens carentes (ou de comunidades carentes) participam do Programa XYZ.
Se os tais jovens não fossem pobres, se usaria uma qualificação equivalente? Algo como:
100 jovens sem carências embarcaram para a Disney.
O dicionário define carente como “aquele que não tem; aquele que precisa; necessitado”.  Pergunto: quem tem tudo? Este é um lado da questão.  O outro é: pobre não tem nada a oferecer?  E este é o lado mais perigoso.
O perigo está em se estabelecer um tipo de relação de mão única que leva à dependência, ou seja, uma relação assistencialista.  Doa-se o excedente para o carente, que se sente incapaz de sair deste lugar porque não é visto como alguém que tem recursos próprios.
Uma vez, após uma formação sobre o “olhar apreciativo”, um morador de uma comunidade me disse: “Nunca mais vou me colocar no lugar do carente: eu reclamava do assistencialismo, mas não percebia que eu mesmo não acreditava nas minhas capacidades, nem nas da minha comunidade”.
Fiquei muito feliz por tê-lo ajudado a se considerar capaz e talentoso. E pensei muito na grande contribuição que os investidores sociais podem levar às comunidades, se não as tratarem como carentes. Se focarem sua atuação no fortalecimento dos talentos das pessoas, na cultura do povo, nas organizações criadas pelas comunidades, na capacidade de interagir, opinar e decidir da população e em muitos outros recursos que vão aparecendo quando são valorizados.
Aqueles que já têm a visão de que o melhor retorno que pode ter o investimento social é o desenvolvimento das pessoas e das comunidades podem ajudar, evitando o uso da palavra “carente”.  As mudanças de visão (ou paradigma ou modelo mental) são facilitadas quando trocamos as palavras.  Por isso, vale um esforço de todos.
Para concluir: tente se colocar no lugar de um jovem classificado como “carente”.  Foi agradável?  Então…


*Célia Schlithler é consultora de OSCs, institutos e fundações empresariais e setor público em desenvolvimento de grupos, redes e comunidades, com trabalhos para a RedEeAmerica e institutos Alcoa, Camargo Correa,  de Cidadania Empresarial, entre outros.


Escotismo e as eleições

Nesta época de eleições e de Pacto pelo Escotismo, nada melhor do que refletir sobre nossa participação política, não é mesmo? Sendo assim não posso deixar de recomendar a leitura deste EXCELENTE texto do chefe Elmer, que também faz parte do seu livro Reflexões de um Velho Lobo.

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POR QUE NÃO?

Tendo em vista as eleições que se aproximam e o dever cívico de votar, cumprindo com a nossa obrigação de cidadão, chegou também o momento de pesquisarmos a relação de nomes colocados à nossa disposição, para sufrágio.

Como sempre, procuramos achar o mais capacitado para nos representar e, não raro, escolhemos errado. Quando descobrimos o erro, às vezes, já é tarde e o erro, irreparável…

O Escotismo é um Movimento Educacional, sem vínculo político partidário, embora seus membros devam ser politizados, procurando dentro de seu entendimento, votar naqueles que melhor representarão os anseios de suas comunidades.

Várias entidades, representando as mais diversas áreas da sociedade, procuram eleger seus membros para que, desta forma, possam garantir e facilitar a realização de seus objetivos.

Nós, do Movimento Escoteiro, temos uma dificuldade muito grande em lidar com esse assunto. Criamos um tabu em torno do tema, bloqueando o que poderia ser um investimento na área de apoio e cooperação.

Com isso, ficamos sempre a depender de políticos estranhos ao nosso meio, quase mendigando para conseguirmos obter algum apoio que, na realidade, nossas reivindicações nem são de cunho pessoal e sim, direcionadas para um trabalho destinado à própria comunidade.

Todas as organizações procuram ter seus representantes nas diversas esferas governamentais, garantindo assim, legítimos defensores de seus ideais, conhecedores das idéias e procedimentos que as suas organizações professam.

Tal fato não acontece com o Movimento Escoteiro brasileiro.

Em vários países, o Escotismo já é representado, defendendo posições coerentes com nossos princípios, cujos benefícios se estendem a toda população. Esses representantes também terão a missão de captarem meios e apoio necessário para facilitar a prática do Escotismo, procurando, como conseqüência, levá-lo a um maior número de jovens. São representantes Escotistas, eleitos pelo voto direto de suas associações.

Para tanto já existe uma organização mundial de Parlamentares que congregam todos os políticos que participam ativamente do Movimento Escoteiro, buscando, em reuniões periódicas, uma linha de ação neste sentido. No Brasil temos a UPE – União Parlamentar Escoteira – que procura expandir essa representatividade, porem esbarra no seu próprio meio associativo.

Por que não cerramos fileiras ao lado dos nossos políticos, elegendo nossos próprios representantes?

Alguém falou que feria a ética, que era aproveitar-se do Escotismo etc.

Se eleitos, quem vai aproveitar de quem? Eles do Escotismo ou o Escotismo deles? Parece que há uma inversão de intenções e atitudes…

Não procuramos eleger candidatos com princípios morais e éticos?

Estes valores são encontrados facilmente nos irmãos de Escotismo. Então, repetimos a pergunta: – Por que não votamos naqueles que já conhecemos?

Vamos procurar encontrar estes princípios em outros se já temos em nossa casa? Faz parte do ditado “Casa de ferreiro, espeto de pau!”?

Nossa organização não deveria alienar-se a esta realidade e deixar passar a oportunidade de elegermos representantes diretos do Movimento Escoteiro.

Com este objetivo sugerimos que, dentro do que foi exposto e segundo sua própria convicção política, sufrague nas próximas eleições, candidatos comprometidos com o Movimento Escoteiro e com os valores professados por todos os membros da nossa associação.

Estamos conscientes que esta atitude somente trará benefícios ao trabalho que realizamos, já há muito tempo, sempre nos queixando da falta de apoio das autoridades constituídas e da indiferença dos meios políticos. Acreditaremos na reversão desta situação, quando tivermos nossos próprios representantes, mas para tanto, teremos que primeiramente, elegê-los.  É um processo de médio e longo prazo, mas, quanto mais cedo iniciarmos, mais cedo teremos nossos próprios facilitadores.

Apenas propomos uma ação bastante simples: Se procuramos candidatos honestos e leais para votarmos, por que não votarmos em nossos irmãos que, com certeza, possuem essas qualidades?

E, notem: Nesta reflexão não mencionamos nomes ou partidos, assumindo uma postura condizente com nossos princípios de movimento apolítico e suprapartidário.

Também é importante salientar que não somos candidato e nem temos parentes na política. Queremos acima de tudo o bem do Movimento Escoteiro!

Elmer S. Pessoa – DCIM – 2010  –  55º MORVAN – Santos/SP


Reflexões de um Velho Lobo – QUANTO GANHA UM CHEFE ESCOTEIRO?

O Chefe Elmer, do 55º GE Morvan Dias Figueiredo envia este texto, que na minha opinião é uma pérola, um dos grandes textos do Movimento Escoteiro.

Espero que gostem,
Altamiro

Este texto é parte do livro Reflexões de um Velho Lobo

QUANTO GANHA UM CHEFE ESCOTEIRO?

Qual o cidadão, militante do Movimento Escoteiro, que nunca foi perguntado sobre o salário que recebe para exercer a função de Chefe ou Dirigente Escoteiro?

Quem nunca foi perguntado onde e como conseguiu esse emprego permanente, essa “mamata” que só trabalha nos fins de semana, pedindo que o indicasse, mesmo para fazer um “bico”, acompanhando nas atividades externas?

Quem nunca reparou a expressão de espanto e até mesmo de descrédito quando você diz que é voluntário e, como tal, trabalha de graça?

Cuidar dos filhos dos outros, levarem para acampamentos, excursões, viagens, passeios, reuniões todos os sábados, aturar má criação de crianças, a rebeldia dos jovens e muitas vezes, a indiferença dos pais? Dormir no mato, no chão duro, às vezes em baixo de chuva e por vezes mal alimentado, levando picadas de insetos e quem sabe, de outros animais inerentes da mata. Correr riscos de acidentes, tombos, cortes, calos, queimaduras…

Não, não é verdade! De graça, nunca! Ninguém faria isso tudo de graça! Não querem é revelar o empregador… Medo da concorrência? Talvez algum setor da municipalidade, Secretaria da Cultura, Esportes ou algo semelhante… Ou até o setor de conservacionismo, agora tão em moda! Talvez o Exército!? Nada disso?… Ah! Já sei, exclamam os incrédulos! No mínimo, vocês descontam como despesas no imposto de renda. Afirmação esta que já ouvi por mais de uma vez. Voluntário é coisa de hospital! Vai lá quando é possível, trabalha duas horas por semana e vem logo embora…

Isto ocorre porque é incomum pessoas que se dedicam ao voluntariado nos dias de hoje. A cada ano a vida exige mais do individuo, subtraindo o tempo que poderia ser dedicado ao próximo, seja a entidade que for. Sem contar que não temos a tradição do voluntariado, como existe em outros países e, uma grande parte dos nossos voluntários desconhece que ser voluntário tem direitos, porem, tem deveres e obrigações.

Quando falamos que ainda por cima temos que fazer vários cursos de capacitação e treinamento, comprar literatura, material didático, material de acampamento individual, bússola, GPS, e mais uma série de equipamentos, e que a maioria das viagens são feitas por nossa conta e que, não raro, ajudamos alguns Escoteiros que estão com maiores dificuldades financeiras, somos rotulados de malucos!

Aliás, o desconhecimento de algumas pessoas é tão grande que, às vezes somos chamados de loucos ou de heróis, por assumir tal responsabilidade. Porem, não sabem que não somos nem uma coisa, nem outra! Somos apenas cidadãos responsáveis.

Varias pessoas estranhas ao Movimento já repetiram as mesmas perguntas e, de certa forma, não deixam de ter razão. Qualquer um que desconheça os princípios do Escotismo, certamente pensará que estamos recebendo salário para chefiar. Não pode acreditar que tantos adultos dediquem o melhor de seus esforços na condução de jovens que nem sequer os conheciam antes de entrarem para o Escotismo.

Efetivamente que estamos ganhando, senão não estaríamos nos dedicando tanto… Estamos ganhando e muito bem! O que recebemos pelo nosso trabalho, não tem preço e ainda por cima, é isento do Imposto de Renda!

Estamos ganhando amigos leais, verdadeiros irmãos de Promessa. Ganhando a sensação maravilhosa do “dever cumprido”! Ganhando a satisfação de fazer a nossa parte, forjando as gerações futuras!

Ganhamos o carinho, o respeito e a afeição dessas crianças e jovens que, em alguns casos, somos a última esperança de uma vida melhor. Sem o desejar, às vezes, somos o modelo do pai que não tiveram e alguém em quem eles podem confiar… Isso, não tem preço!

Se alguma dessas pessoas se põe a analisar as responsabilidades colocadas sobre os ombros, que assume um Escotista, e as dificuldades de trabalhar com crianças e jovens, logo acabará por desistir. Qualquer pessoa, sem espírito altruísta, que colocar na balança de seu entendimento as vantagens e desvantagens que o Escotismo oferece muito provavelmente, decidirá deixá-lo ao perceber o quanto difícil é trabalhar o caráter.

Quando eu ainda era Escoteiro meu chefe, homem vivido e experiente no Escotismo costumava dizer com muita convicção e nunca mais esqueci suas sábias palavras: “Ser Chefe Escoteiro é quase um sacerdócio!”.

Então, chegamos à conclusão que ganhamos muito bem para ser Chefe Escoteiro. Um salário bastante alto que, porém, nada se compra com ele!

Elmer S. Pessoa – DCIM – dezembro 1986/2010

55º MORVAN – Santos/SP